Análise Xbox One: 1 ano depois

1 ano. Esse é o tempo de mercado do Xbox One, console lançado pela Microsoft em novembro de 2013. O sucessor do 360 teve um início lento e complicado e não faltou trabalho para a empresa durante esse ano de 2014. A Microsoft fez uma verdadeira revolução: a politica do console multimídia, com foco na TV e com o Kinect como peça chave, saiu de cena para dar lugar a um console voltado para os gamers.

2014 passou e chegou a hora de analisar esse primeiro ano de vida do console. Mas antes, vamos dar uma olhada para trás e entender como o Xbox One chegou até aqui.

Olhando para trás: uma rápida retrospectiva

O caminho foi longo para a Microsoft e seu Xbox One. O console foi revelado oficialmente em maio de 2013, onde a empresa exibiu as funcionalidades de TV e mídia do seu novo console. A visão completa foi apresentada um mês depois durante a E3. Na emblemática apresentação pilotada por Don Mattrick, a empresa soltou, de uma só vez, duas bombas: o console precisaria estar conectado à Internet, mesmo durante partidas offline, para uma checagem a cada 24 horas e o DRM para jogos usados impossibilitaria a venda e/ou troca dos mesmos da forma convencional. O anúncio do preço inicial de $500 também não ajudou muito. E para piorar, a Sony, durante a apresentação do seu PS4 no mesmo evento, reafirmou seu foco nos games e que o seu novo console continuaria funcionando da mesma forma que os consoles da época: ou seja, nada de checagem a cada 24 horas pela Internet ou DRM para jogos usados. E isso por $100 a menos do que o novo Xbox. A Microsoft voltaria atrás dias depois da E3 em algumas dessas políticas mas o estrago já estava feito. Don deixou a Microsoft poucos dias depois. O PlayStation 4 virou o console dos gamers e o Xbox One sofreu um bombardeio de críticas de todos os lados. A Microsoft tinha jogadora fora, naquele momento, as conquistas alcançadas desde 2005 com o Xbox 360.

Xbox One

Nos meses que antecederam o lançamento do console outra polêmica surgiu para piorar ainda mais a situação: a discussão sobre a qualidade gráfica dos games. Os jogos multi-plataforma anunciados até então para o console tinham resolução menor do que os equivalentes para o PS4 (Assassin’s Creed IV: Black Flag e Call of Duty: Ghosts são alguns dos exemplos).

No dia 22 de novembro de 2013 o sucessor do Xbox 360, o Xbox One, desembarcou em 13 países com a árdua missão de superar o seu irmão mais velho e recuperar a confiança dos fãs. Afinal, o 360 vinha mantendo a liderança absoluta em vendas no mercado norte-americano até então. O console teve um bom lançamento, comparando-se ao PlayStation 4 em vendas no mês de dezembro. Mas durante praticamente todo o ano de 2014 o que se viu foi o PS4 aumentar cada vez mais a diferença, em número de vendas, para o novo console da Microsoft. Com o lançamento de Titanfall, em março, as vendas do console melhoraram um pouco. A empresa começou um ciclo de atualizações mensais da dashboard. O programa Games with Gold chegou em junho; a empresa (finalmente) removeu a necessidade de ter uma assinatura da Xbox Live Gold para acessar aplicações como Netflix e YouTube. No meio do ano a Microsoft abandonou de vez a sua visão de entretenimento digital e lançou um pacote do console, $100 mais barato, e sem o Kinect. Essas novas mudanças fizeram as vendas do console aumentar. Em novembro a Microsoft reduziu ainda mais o preço do console ($50 de desconto no mercado norte-americano) e o Xbox One finalmente ultrapassou o PS4 em número de vendas nos dois últimos meses de 2014.

Hardware confiável e evolução no controle

O Xbox One é grande e pesado (você já viu um vídeo cassete? Então…). O console provavelmente não ganhará um prêmio pelo seu design clean e moderno, mas o importante é que ele é silencioso e que durante esse primeiro ano se mostrou confiável. O que já é uma ótima notícia para todos aqueles que vivenciaram os primeiros anos de Xbox 360 (e que compraram pelo menos quatro deles!). O controle do console é una evolução do ótimo controle do 360. Os gatilhos tem vibração (impulse triggers), o acabamento dos direcionais melhorou e o direcional digital é muito melhor do que aquele encontrado no 360 (a diferença é nítida em jogos de luta). Outra melhoria muito bem-vinda foi a redução de tamanho do compartimento das pilhas que aumentou o espaço para os dedos atrás do controle. E por falar em pilhas, esse para mim é justamente o ponto fraco do controle: apesar da boa autonomia, voce precisa ter sempre 2 pilhas pequenas por perto. Ou então desembolsar um pouco mais para comprar um kit de recarga.

Interface (dashboard)

A dashboard, ou simplesmente interface do console, é uma das melhores provas de como o Xbox One foi lançado às pressas em 2013 (apenas para registrar, o PlayStation 4 não se saiu muito melhor nesse ponto não). Como um console chega ao mercado com uma interface onde não é possível gerenciar os jogos salvos, ver a quantidade de espaço usado ou então simplesmente o quanto resta de autonomia das pilhas do controle? Minha reação em novembro de 2013, logo após as primeiras horas com o One, foi de espanto. E para piorar, as instalações obrigatórias e intermináveis dos jogos; realmente um cenário não muito animador para uma nova geração de consoles.

xbox one dashboard

Mas as coisas melhoraram (já que piorar não dava, certo?). Méritos para a Microsoft e o excelente trabalho com seu ciclo mensal de atualizacões. Não somente isso, mas a empresa provou estar escutando seus usuários através do site Xbox Feedback. A prova? Em apenas 1 ano o console ganhou suporte para armazenamento externo, um player de mídia capaz de reproduzir arquivos mkv, suporte DLNA, muitas melhorias no modo snap e até mesmo um indicador de carga das pilhas/bateria do controle. Sim, a dashboard do Xbox One ainda pode melhorar, principalmente na questão da customização. Mas boa parte das funcionalidades esperadas já estão presentes.

Xbox Live

As coisas começaram (bem) devagar do lado da Xbox Live. A Microsoft prometeu lançar o programa Games with Gold, que normalmente oferece 2 jogos de graça por mês no Xbox 360, no Xbox One. A promessa só foi cumprida em junho de 2014, com a chegada de Halo: Spartan Assault. Desde então a Microsoft tem lançado novos jogos mensalmente (ou quase). Mas o problema da Games with Gold é a qualidade dos jogos: Crimson Dragon e Strike Suit Zero não são exatamente jogos indiscutíveis. Fazendo uma rápida comparação, os donos do PS4 tiveram acesso a Strider, Fez e Injustice através do programa equivalente (Instant Collection). Um pouco melhor, não? Outro ponto: Crimson Dragon foi oferecido durante 3 longos meses! Por outro lado, o programa EA Access, exclusividade do Xbox One (pelo menos por enquanto), trouxe mais variedade para a biblioteca do One.

Centro de entretenimento digital?

O Xbox One foi anunciado como um verdadeiro centro de entretenimento digital. Porém no lançamento o que se viu estava longe do prometido: suporte a TV e OneGuide restrito a pouquíssimos países, um leitor Blu-Ray incapaz de reproduzir filmes em 3D, falta de suporte DLNA e de uma forma de reproduzir conteúdo a partir de um drive externo: as capacidades multimídia do console estavam atrás das oferecidas pelos próprios consoles da geração passada, PS3 e Xbox 360. Mas as coisas melhoraram muito; e rapidamente. Hoje o serviço de TV está disponível em vários países, inclusive no Brasil. A Microsoft adicionou suporte para a reprodução de filmes em 3D e o suporte DLNA. Alem disso o Xbox One hoje é capaz de reproduzir vídeos armazenados em um drive USB através de uma aplicação media player, que reconhece até mesmo alguns formatos menos convencionais como o mkv. As aplicações já esperadas como Netflix, YouTube e Hulu estão disponíveis, só que agora elas podem ser usadas de graça mesmo por aqueles que não tem uma assinatura da Live Gold. A parte de TV também ganhou novos recursos com as atualizações mensais; você pode até configurar o console para ligar diretamente no modo Live TV. Hoje o Xbox One é o console que oferece o melhor suporte multimídia. Ele está anos luz à frente do seu concorrente direto, o PS4, e um passo à frente da geração anterior. Ponto para a Microsoft.

Kinect

No lançamento do console o Kinect era peça central na estratégia de entretenimento digital da Microsoft. O Kinect 2.0 é, do ponto de vista técnico, um sucesso. Com sua maior precisão o acessório é capaz de reconhecer quando você está sentando, ou no escuro e até o movimento dos seu dedos. A Microsoft apostou que poderia justificar os $100 extras do seu console em relação ao preço do PS4 com o Kinect. Mas o primeiro problema foram os jogos; na verdade, a falta deles. É verdade que muitos dos jogos lançados para o Xbox One têm algum tipo de suporte para o Kinect. Mas esse suporte geralmente se limita a pequenas ações secundárias. Mas e os exclusivos prometidos? Em abril o console recebeu Kinect Sport Rivals e mais recentemente, no final de outubro, o game Fantasia, da Harmonix. Os dois são divertidos e mostram a capacidade técnica do Kinect, mas é muito pouco.

Fato é que a estratégia não funcionou e a resposta do mercado foi clara. No meio de 2014 a Microsoft mudou o rumo do console, criando um novo pacote sem o Kinect e por $100 mais barato.

E os games?

O Xbox One chegou ao mercado com uma lista de exclusivos interessante: Dead Rising 3, Forza 5, Ryse Son of Rome e o ótimo Killer Instinct se juntaram aos multi-plataformas como FIFA 14, Assassin’s Creed IV: Black Flag e Call of Duty: Ghosts. Nenhum exclusivo espetacular, é verdade, mas dificilmente um console ganha jogos do tipo em um lançamento (com a exceção da Nintendo e seus consoles).

Infelizmente as politicas da empresa não favoreceram o surgimento de jogos Indies e F2P (Free-to-Play) para o console durante boa parte do ano. Em uma dessas politicas a Microsoft exige que um jogo Indie, para ser lançado no console, não pode aparecer antes em outra plataforma (o lancamento precisa ser pelo menos simultâneo). Isso afastou boa parte dos desenvolvedores Indie e acabou enviando eles diretamente para a Sony e seu PS4. A situação melhorou nos últimos meses, com um número cada vez maior de jogos Indie aparecendo no console. Mas ainda é pouco; boa parte dos melhores games dos desenvolvedores independentes chega primeiro (como Outlast), ou com exclusividade (caso de Towerfall), no PS4. Outro problema que a Microsoft ainda precisa resolver é a questão da retro-compatibilidade. A Sony apostou no streaming de jogos através do seu serviço PS Now para rodar jogos do PS3. A Microsoft pode estar preparando um serivço semelhante, atualmente conhecido pelo codinome “Arcadia”, para tirar proveito da extensa biblioteca de games para o Xbox 360.

Valeu a pena?

O lançamento do Xbox One foi uma verdadeira tragédia: a empresa tentou vender sua visão de centro de entretenimento digital, empurrando o Kinect e um pacote com preço abusivo goela abaixo dos seus fãs. O preço não foi o único problema; dashboard muito limitada e uma biblioteca de jogos com poucas opções. Mas a Microsoft admitiu o fracasso da sua estratégia e correu atrás do prejuízo: 1 ano depois, o discurso de TV e Kinect desapareceu, o preço foi reduzido e os jogos começaram a surgir. 2014 foi um ano de aprendizado e reinvenção para a Microsoft. Em sua nova estratégia a empresa mudou seu foco para o que realmente interessa em um console: os games. O Xbox One de hoje é o console que deveria ter sido lançado originalmente. Talvez não com uma dashboard tão evoluída, já que muitas das novidades aplicadas foram graças ao feedback dos usuários. Mas a independência do Kinect, preço, Games with Gold e maior oferta de games Indie poderiam ter mudado o cenário em 2014 na batalha contra o PlayStation 4.

Assim como aconteceu com o PS4, eu não vejo nada nesse primeiro ano de vida que tenha justificado a compra do Xbox One. Quem esperou vai fazer um ótimo negócio, principalmente pelo preço mais baixo e com uma biblioteca de jogos muito mais extensa.

Com a sua recuperação do final de 2014 (o console liderou as vendas no mercado norte-americano em novembro e dezembro), o Xbox One parece agora estar no caminho certo. O ano de 2015 promete boas surpresas para os fãs do console.

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Sobre: André Machado

André Machado é um gamer hardcore, desenvolvedor na Ubisoft Montreal, blogger, youtuber e ex-stargamer. :) Saiba mais sobre o autor.

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7 comentários sobre “Análise Xbox One: 1 ano depois”

  1. Alexandre Assis disse:

    Tem mais o anúncio do DX12 que promete dar um up no console também. Ótimo texto. Abraço

  2. Kelly disse:

    Surpresa!! Não entendo de jogos e gostaria de comprar um Xbox para minhas crianças (5/9/11 anos), estava decidida a comprar o Xbox one Kinect, mas depois de ler seus comentários fiquei na dúvida. Qual sua sugestão para comprar no meu caso?

    • Oi Kelly, tudo bom? Obrigado pelo comentário! Então, na minha opinião o Xbox 360 (ainda) tem duas grandes vantagens em relação ao Xbox One: o preço (do console, acessório e dos jogos) e a quantidade de jogos. Além disso existe uma boa quantidade de jogos para crianças na idade dos seus filhos. Já para crianças mais velhas, principalmente aquelas por dentro dos últimos lançamentos, o Xbox One passa a ser uma opção mais interessante. Então eu acho que hoje, no seu caso, o 360 ainda é a melhor opção. Espero que ajude! Abs, André

  3. Rayana disse:

    Olá,
    Estava com a mesma duvida da Kelly, tenho uma filha de 7 anos e quero comprar o video game para ela, gostos de jogos também. Bom saber que o xbox 360 continua a ser uma bboa opção.

    Grata,

  4. Gabriel Gross disse:

    Xbox one é uma bosta. Vários casos do console travando. Isso é uma vergonha p uma empresa como Microsoft. A quantidade de console com problema de travamento, já conhecido nas redes sociais e comentários sobre o console, a famosa tela verde da morte ou tela preta interminável. Comprem o PS4. O console Microsoft é o legítimo ‘potência sem controle’ falta nowhow pra Microsoft em matéria de vídeo game. Em média, menos de seis meses é o game dá pau. Vergonha. Agora já comprei, mas gostaria de ter a opção de trocar ou devolver. Queria meu $$$ de volta.

    • Opa Gabriel, tudo bom? Obrigado pelo comentário! Respeito sua opinião, mas tenho que discordar. Comprei meu console no lançamento, em 2013, e nunca tive qualquer problema. E das pessoas que conheço com o console, nenhuma delas teve problemas. Mas é claro que isso não é representativo para afirmar que o console é confiável ou não. A quantidade de consoles com problemas está dentro da média aceitável pelo mercado (failure rate), bem diferente do que aconteceu com o Xbox 360. Obrigado! Abraço, André

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